Uma experiência no Sul da Austrália

Depois de tanto tempo longe do blog, voltei pra compartilhar uma experiência que tive na Austrália. Vou começar dizendo que foi linda, mas inacreditável e um pouco traumática.

Bom, fui para Melbourne no final do ano e dessa vez estava decidida a mergulhar por lá. Depois de pesquisar bastante e achar tudo um pouco confuso, liguei em uma das operadoras que encontrei, para pedir mais informações. No site tinha lido que não havia acompanhamento de dive master ou instrutor e que se fosse necessário, esse serviço precisaria ser contratato a parte. Depois de perguntar sobre as condições gerais, datas, horários, etc, entrei nesse assunto e quase caí pra trás. Disse à atendente que era instrutora, com razoável experiência, mas que nunca tinha mergulhado na região e queria saber como eram organizadas as duplas ou grupos para o mergulho. Para minha enorme surpresa (a 1º delas), ela me disse que se eu era instrutora, não precisava de dupla não, podia ir sozinha! O.o E pra piorar, acrescentou: “De qualquer forma, você não ia esperar que um mergulhador básico fosse conseguir te ajudar caso você precisasse, né?”. Desliguei em choque.

mapa port phillip bay

Port Phillip Bay

Por sorte, uma amiga acabou me apresentando o Andrew, um mergulhador com bastante experiência na região, que foi super gentil e se dispôs a organizar um dia de mergulhos para a gente e me explicou muito sobre os pontos e o esquema de operação, que é bem diferente daqui do Brasil. Os mergulhos ali são todos feitos na Port Phillip Bay (ou proximidades) e tem para todos os gostos e níveis: mergulho de praia/píer, recifes, drift e mais de 40 naufrágios. A operadora tem várias embarcações e cada uma já tem um destino agendado previamente, então você escolhe o ponto que quer ir e reserva sua vaga na embarcação definida.

Um dos meus maiores desejos era conseguir ver um seadragon, então decidimos fazer um mergulho de manhã bem cedo no Portsea Pier, onde o Andrew disse que tínhamos mais chances de achar um. No final da manhã faríamos uma saída para um dos naufrágios mais ‘badalados’ de lá, o HMAS Canberra, e fecharíamos o dia com uma saída para o Rip Bank, uma parede aparentemente incrível e com muita vida, onde é comum avistar tubarões-albafar (Hexanchus griseus).

A previsão era Sol e as condições da água supostamente estavam muito boas, então fomos animadíssimos até Portsea (+/- 1h30 de Melbourne de carro) começar nosso dia, que prometia ser fantástico. Chegando na operadora, preenchi uma ficha e paguei….e aí veio minha segunda surpresa: esse foi praticamente o único contato que tive com qualquer membro da equipe. (O outro foi quando um instrutor se infiltrou na minha foto para fazer chifrinho. – é sério!)

Em momento algum me perguntaram ou ofereceram qualquer coisa, o que me espantou bastante. De todas as operadoras brasileiras que visitamos pelo Mergulhando na Estrada, que foram mais de 70, somente em uma eu vi algum estrangeiro ser ignorado de forma parecida com a que eu fui.

foto Andrew e Julia

meu dupla incrível Andrew e eu
(antes de todas as surpresas!)

Depois de experimentar os equipamentos, veio a terceira surpresa: a gente teria que andar da loja até o pier, completamente equipados. Eu e minha hérnia de disco ficamos hiper felizes, mas eram menos de 100m, então lá fomos nós. Eu estava com roupa de 7mm e o Andrew de roupa seca e cilindro duplo, e depois de 2 segundos já estava pingando e rezando pra pular logo na água, que devia estar perto dos 18ºC. A profundidade ali não passava dos 4,5m, então ficamos mais de 1h aproveitando, com visibilidade de +/- 7m. Não achamos um seadragon, mas CINCO! Foi incrível!!!! Não conseguia tirar os olhos e parar de admirar a beleza daquele animal fantástico. Fora eles, também vimos uma sépia e muitos baiacus.

Pular na água é fácil, né? Agora subir uma escada a 90º, com 7 degraus de metal rosqueado e totalmente equipada, não tanto. A hora que chegamos na operadora de volta, eu estava muito feliz e encantada com o mergulho, mas bem cansada! Tínhamos um bom intervalo, então fomos tomar um café, descansar, bater papo e trocar experiências.

Logo estava na hora de me equipar novamente e me ‘arrastar’ até o barco. Ficou muito claro pra mim, que apesar dos problemas que temos em algumas operações de mergulho aqui no Brasil, eu estava muito mal acostumada. Acho que uns 80% do pessoal estava de roupa seca e cilindro duplo, todo mundo parecendo mega experiente e caminhando equipado como se não fosse esforço algum. O barco estava super cheio, mas foi um alívio achar um cantinho para largar o cilindro. Quarta surpresa: não teve briefing. O capitão só me disse, no inglês com sotaque mais carregado e mais rápido que eu já ouvi na minha vida, onde ficavam os coletes salva vidas. Não teve briefing sobre o ponto também, coube a cada dupla ou grupo planejar seu próprio mergulho. A essa altura eu já sabia que se não fosse o Andrew, eu estaria completamente perdida. O barco foi até Queensclif buscar mais uma turma e logo estávamos no HMAS Canberra. A nossa ideia era descer pelo cabo, nadar até a cabine de comando, que está a 12m de profundidade (o fundo está a 27m), e fazer todo o naufrágio por dentro. Quando chegamos na cabine, a água estava muito fria, a corrente bem forte e a visibilidade mais ou menos, então preferimos não fazer a penetração e optamos por mergulhar ao redor do naufrágio. (depois descobri que pra eles, aquelas condições eram consideradas muito boas).

O Canberra era um navio da marinha australiana, com 138m de extensão, e foi o primeiro naufrágio artificial de Victoria, afundado em 2009. Apesar de impressionante pelo tamanho, decks de voo e pela história, não tem muita vida marinha ou cores e, comparado com os nossos naufrágios de Recife, foi um pouquinho decepcionante. O destaque do mergulho foi na parada de segurança: uma água viva linda e bem grande que nos fez companhia junto com sua ‘comitiva’ :)

Agora sim eu estava exausta. Navegação de volta (sem comida ou água), mais caminhada equipada até a loja, nova recarga de cilindro, mais uma caminhada até o barco e lá estávamos nós indo para o Rip Bank. Dessa vez alguém da equipe avisou que havia muita corrente e que os mergulhadores iam ser deixadas no ponto uma dupla/grupo por vez. O Andrew nunca tinha mergulhado nesse ponto antes e eu, sinceramente, não estava entendendo praticamente nada do que o cara estava falando. Meu inglês é razoável, mas não é perfeito….e juntando motor do barco, vento alucinado, sotaque muito forte e velocidade insana, estava aproveitando bem pouco daquele briefing. E não contei um detalhe pra vocês, meu dupla Andrew, é deficiente auditivo. Até agora nem tinha porque eu comentar – ele faz leitura labial perfeitamente, fala muito bem e não tivemos problema algum de comunicação, mas nessa hora comecei a ficar preocupada, porque eu não estava entendendo muita coisa e o Andrew estava do outro lado do barco se equipando. Eu chamei o cara que estava dando as instruções e perguntei se ele podia repetir ao Andrew, já que meu inglês não era tão bom e o Andrew era surdo. Ele disse que ia, mas não foi. Eu acabei indo até lá e disse ao Andrew que era melhor ele conversar com o cara, porque aparemente tinha muita corrente e ele estava dando instruções específicas. Tudo resolvido e nossa vez de cair na água. Não sei se feliz ou infelizmente, porque estava realmente cansada, a água estava correndo muito mesmo e a visibilidade estava péssima (nem conseguimos ver a parede!), depois de 10 minutos tivemos que abortar o mergulho, porque estava entrando água na roupa seca do Andrew.

Agora a última e pior surpresa de todas: Os mergulhadores começaram a subir e fomos buscando cada dupla. Percebi que vários estavam carregando umas ‘sacolas de redes’ e não quis acreditar quando finalmente entendi o que estava vendo. Os mergulhadores simplesmente capturaram dezenas de lagostas do recife e estavam trocando elogios e tapinhas nas costas, se vangloriando do tamanho de uma, da quantidade de outro ou de como o jantar ia ser delicioso. Quando perguntei ao Andrew o que ‘significava’ aquilo, ele me respondeu que é normal lá, que fazem isso em vários pontos e não conseguiu entender minha indignação. Tentei explicar o quanto é injusto usar um cilindro, invadir o habitat desses animais e simplesmente capturar o que quiser, mas acho que ele só entendeu o quanto aquilo realmente me machucou, a hora que desabei em lágrimas. Queria falar com as pessoas, protestar, explicar, mas me envergonho em dizer que não consegui. O dia todo tinha sido tão intimidador e eu estava tão exausta que, covardemente, só chorei. A última caminhada equipada de volta à operadora foi a mais longa, porque agora, além de exausta fisicamente, minha cabeça também estava um caos e estava triste. Voltando para a operadora em migalhas, vi a mesma sacola de captura, à venda…ali, no meio de máscaras, reguladores e dispositivos de segurança.

O dia valeu a pena por ter conhecido o Andrew, que realmente é um cara incrível e sem o qual eu não sei o que teria sido de mim, ter tido o privilégio de ver os seadragons e de me encantar mais uma vez com a beleza infinita da natureza e ter tido essa experiência, em muitos momentos traumática, que me fizeram valorizar MUITO o que temos no Brasil. Por mais complicada que seja a questão de mão de obra ou por mais precária que seja a estrutura, nunca havia passado o que passei por lá. É fácil falar mal do nosso país e bajular os outros, mas nem sempre as coisas são assim preto e branco. Além disso, serviu de lembrete de que nunca podemos parar de aprender e nem esquecer nossas capacidades e limites.

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